Pra celebrar 80 anos, não precisa estampar
Em anúncio publicitário, em prescrição médica,
Ou em noticiário do jornal noturno o que sentes
E sim no coração e alma de quem os contempla.
E a vida nos ensinou assim; pra celebrar
80 anos é necessário se despir da indiferença
(deixa-a de lado) por vênia à vida que viveu.
Em você, nada mais fluirá, senão a resignação do tempo...
Para quem os completa, o tempo percorre
Caminhos de renúncia e dor. E tudo é feito sob
Escombros de lembranças, datas vencidas,
Perdas merecidas pela fraqueza da aspiração.
Mas te portas assim? Deves cortejá-la, meu irmão?
Não será o arrependimento uma ilha desabitada?
Bem sabes que o fraco e o arrependido
São companheiros numa comunhão quase inabalável.
Em um ponto remoto, resume-se a vida em avanço
Intacta está a casa amarela? A praça inserida nos namoricos
habituais? A rua sem o cumprimento
do progresso? As lutas adquiridas pelo convencimento utópico?
Essas coisas apenas carregam consigo a beleza
De que o passado está desbotado na carta que nada esclarece
E estático pelo retrato imprevisível da família incomunicativa
Contudo, nada te pertence, a tua lucidez é o que te resta.
Ora, camarada, o que te resta é o teu presente!
As tuas rugas demonstram que o envelhecer
Está na matéria e que mais vale a forma de vida
No teu íntimo, onde podes renová-la sempre-sempre.
Que faz, à tua maneira, com dinamismo incoerente
Para a tua idade, mas de que vale a idade? Se toda ela
É mero acontecimento onde o corpo e a razão se anulam.
Meu amigo que tem olhos de luz. Meu amigo ausente.
Meu querido amigo, que tão pouco conheço,
Mas te conheço; lançaste-me a uma aventura terna e lírica.
Hoje as praias, as bibliotecas, os sábios
E ouvintes matutinos celebram-te, cantam à tua homenagem
E assim será, pelo coração sutil de quem aprende
Pela voz confessa de quem não estranha alegria
Pela sombra que um dia contribuiu para uma história
E pela amizade que se fez na ausência complacente.